quarta-feira, 13 de julho de 2011

"As crianças precisam de sentir que são prioridade" - Entrevista a Torey Hayden


O que a levou a transformar as suas experiências em livros?  
Quando escrevo, escrevo para mim, para que as coisas me façam sentido. Ao princípio não pensava publicar qualquer livro. Mas os textos foram aparecendo e acabou por acontecer.  
Hoje é uma escritora de enorme sucesso à escala mundial, contando mais de dez milhões de exemplares vendidos (cem mil só em Portugal). Como explica este feito? Os assuntos que abordo são universais. Todos sabemos o que é não conseguir dizer o que queremos. O que é não conseguir expressar ou pedir o amor de que precisamos. São temas que tocam as pessoas.  
Sempre quis trabalhar com crianças?  
O que eu queria ser era escritora, mas não gostava de inglês, não era nada empenhada nas aulas. Também adorava animais. Como nasci e cresci em [no estado do] Montana ainda trabalhei algum tempo no Parque Natural de Yellowstone, mas a vida não seguiu esse rumo...  
Então?  
As minhas origens são pobres. Para poder estudar tive de arranjar maneira de pagar as contas. O único trabalho em que me pagaram o suficiente para isso foi numa instituição local de apoio a crianças com necessidades especiais. Fiquei apanhada!  
Deve ser complicado pôr a falar uma criança que não quer ser ajudada?  
É uma questão de paciência. Estejamos a falar de crianças sem qualquer deficiência, embora marcadas por algum trauma, ou de crianças autistas, por exemplo, é preciso paciência.  
Paciência?  
Sim. Isto porque é mais importante saber ouvir do que ter pressa em falar, em dar ordens, como os adultos gostam tanto de fazer. O que as crianças querem é perceber que estamos ali para elas, é que somos de confiança, e não alguém que tem pressa em impor seja o que for, em mostrar o que é certo ou errado.  
O que interessa é o momento. É isso?  
Sim. É preciso dar a entender à criança que o tempo é dela, que temos tempo para a ouvir. Que temos todo o tempo do mundo.  
Os problemas das crianças de hoje são diferentes dos vividos pelas gerações anteriores?  
Não. Os problemas são iguais. Há algum tempo li um texto de um monge do século XVIII sobre as crianças e fiquei ainda mais certa de que as pessoas não mudaram tanto como possa parecer.  
Mas hoje os pais estão mais preparados para lidar com as crianças?  
É verdade, os pais estão mais atentos às necessidades das crianças... O problema é que têm menos tempo para elas. As pessoas entregam-se muito às carreiras e isso rouba-lhes tempo, o que é complicado pois as crianças precisam de sentir que são prioridade.  
Quer deixar um conselho aos pais portugueses?  
Mas que grande responsabilidade! Bem, aconselho-os a darem mais tempo aos seus filhos. A tentar percebê-los, compreendê-los. A ter a capacidade de se afastar o suficiente para os ver, para conseguir entender o que querem e como é que eles são enquanto pessoas. Lembro aqui uma história da minha infância...  
Pode contar.  
Quando eu era rapariga, em Montana, era costume os namorados porem moedas na linha do comboio, de forma a que ficassem espalmadas, para depois as oferecerem às namoradas num fio, como se a moeda fosse um medalhão. Havia uma amiga minha que queria que o namorado lhe desse um dólar de prata, mas como ele era pobre isso era muito dinheiro, então ele espalmou um penny (um tostão). A questão é que ele sofreu um acidente e morreu antes de lhe dar a medalha. Ela nunca mais largou aquela medalha. Se ele não tivesse morrido ela teria ficado aborrecida por não ter o dólar de prata, mas assim openny ganhou importância. O problema às vezes é as pessoas darem importância a coisas de nada e esquecerem o que é importante.
Data de publicação: 19/5/2009
Fonte: 24 Horas
Jornalista: João Nascimento

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